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Las cosas

Acumulamos conhecimento, formulamos teorias e encontramos possíveis explicações para algumas das perguntas primordiais. E criamos deuses à nossa imagem e semelhança, mas ainda pensamos e atuamos de forma homocentrista, acreditando que todo o universo circula a nossa volta. Como si todas as coisas nos pertencessem, como si pudéssemos fazer qualquer coisa com todas as coisas, si fôssemos grande coisa.
 

Mas sobre todas as coisas, muita coisa ou pouca coisa, não é grande coisa. Coisa estranha é que qualquer coisa ou coisa nenhuma tenha alguma coisa a ver com outra coisa. Não há outra coisa em que pensar, são coisas da vida, coisa de criança, coisa de velho, e se não, tente outra. Mas como são as coisas, faz coisa de um minuto não havia visto coisa igual, cada coisa em seu lugar; as coisas de casa, a coisa pública, coisas que compartilhamos, todas as coisas, ou meia dúzia de coisas. Como se esa coisa tivesse importância, que coisa mais sem sentido... e não há coisa mais importante que se fazer? É coisa de ter paciência, mas isso é outra coisa. Uma coisa de loucos. Ai que coisa! Cada coisa! Que coisa! Que coisas pensas! Bom... isso é coisa minha.

¡Qué cosa!

Por Diana Gort - 10ª Bienal de La Habana

Toda história está contida na linguagem*1, na palavra; aquilo que constrói para nós um imaginário simbólico completo no qual existimos: nós não criamos a linguagem, a linguagem nos cria*2. Existimos na medida em que somos nomeados, na medida em que construímos, de forma mais plena e eficaz, o espaço da narrativa: o tempo.

 

Babilônia, com seus edifícios de tijolos e templos que se erguiam como pirâmides inacabadas*3, viu em uma única língua um primeiro passo rumo à dominação mundial. Uma de suas lendas conta que ali os deuses se assustavam com a arrogância dos homens, que os ameaçavam até mesmo em seus lares celestiais. E, de fato, nossa relação com o mundo sempre foi bipolar. Bom-mau, feio-bonito, sujeito e objeto, nós e o outro, nós e as coisas.

 

As Coisas. Asim se titula a exposição que Luiz Simoes apresenta na 10ª Bienal de Havana. Nascido no Brasil e naturalizado espanhol, abandonou os estudos de biologia para se dedicar à fotografia. Atualmente, utiliza diversas técnicas e trabalha em projetos conceituais que levam anos para serem concebidos e executados, resultando, em última instância, em objetos tangíveis. Tudo o que faço é uma reflexão sobre a existência, sobre quão frágil e irreversível é tudo.  Esta é a minha questão primordial e está presente em toda a minha obra.*4 As Coisas, além disso, é fruto dos anos de viagem do artista e do seu desejo de compreender o mundo a partir de uma perspectiva holística, talvez devido à sua formação científica.*5 Nesta série de quatro obras — Plasticosa, Electronicosa, Eva, Adão y las Cosas e Qué Cosa? — o artista questiona nossa relevância no universo: somos tão arrogantes e antropocêntricos que criamos Deus à nossa imagem e semelhança.*6

 

As Coisas" é uma visão panorâmica, mas que inclui o próprio artista, onde Simoes nos vê como pequenos componentes de uma grande máquina, como na obra Electronicosa. É uma narrativa contada através da linguagem, a partir de um conceito desenvolvido ao longo de anos, sobre a história da humanidade, que nos remete não só à Torre de Babel como metáfora do homocentrismo, mas também ao Conhece-te a ti mesmo que o Oráculo de Delfos disse a Aristóteles, ou ao Quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos? de Gauguin.

 

As coisas questionam a humanidade, o humano que também é uma coisa. Desde o momento em que nos nomeamos, desde o momento em que nos perguntamos quem somos, de onde viemos e para onde vamos, somos também um objeto, mais uma coisa entre as coisas. O ser humano, que coisa?

 

 

1 - Alberto Abreu Arcia. Os Jogos da Escrita ou a (Re)escrita da História. Prêmio Casa de las Américas 2007, ensaio artístico-literário. Editora Casa, Havana, 2007.

2 - Martin Heidegger. Hölderlin e a Essência da Poesia. Biblioteca Digital de Teoria da Cultura Artística. Compilado por Carlos Eddy Simón Forcade. Faculdade de Letras, Universidade de Havana, 2007.

3 - Introdução ao Êxodo. Bíblia Latino-Americana.

4 - Luiz Simoes. Dossiê Tempo. www.luizsimoes.com

5 - Pepe Font de Mora. Sobre Luiz Simoes. www.luizsimoes.com

6 - Luiz Simoes. Entrevista com o artista. Instalação para a 10ª Bienal de Havana, 2009.

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¿Qué cosa?

36 telefones que pertenciam a uma delegacia de policia, 36 fotos roubadas com telefone montadas em acrílico, tinta acrílica, voz e circuito eletrônico, em caixa de ferro oxidado. 14 x 95 x 185 cm

Electronicosa

Duratrans e placas de circuitos electrônicos, em caixa de luz. 21 x 120 x 234 cm

Plasticosa

Duratrans em acrílico sobre meus residuos plásticos acumulados em um ano e acrílica, em caixa de luz. 13 x 90 x 234 cm

Eva, Adão e as Coisas

Vídeo de uma performance de dança com música para basuróphonos, voz feminina, serrote e percussão, em tela de 32 polegadas com moldura de ferro oxidado. 10 minutos em loop. 13 x 90 x 120 cm

Making of Eva, Adão e as Coisas - video 2 min.

Coisas são só coisas, e há na vida coisas que não são coisas, que eu não trocaria por coisa nenhuma

Frente: Gelatina de prata sobre tela / Verso: Poliuretano, pigmentos de ferro e quadro de bicicleta quebrado. 90 x 146 cm

Coisa de crianças

Armas de brinquedo, popoliuretano, óxido e hidróxido de ferro sobre tela de juta. 90 x 146 x 19 cm

Gelatina de banana sobre prato virada em urina

Gelatina de prata sobre papel virada em ouro. 49 x 59 cm

Décima Bienal de La Habana, 2009

 Galeria Blanca Berlin. Madrid, 2008

Making of Las cosas - video 2 min.

Luiz Simoes

contemporary artist
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